Michel de Montaigne.

Introdução

A inscrição no pórtico do templo de Apolo em Delfos, “Conhece-te a ti mesmo”, a partir da experiência de Sócrates que, na sua busca da sabedoria, interrogava as pessoas levando-as a se examinarem e, desta maneira, perceberem que não eram tão sábias como achavam[1], passou a ser uma das questões centrais na investigação filosófica. Ou seja, a questão do conhecimento de si ou do autoconhecimento, seu valor e importância é algo presente em toda a História da Filosofia, variando muitas vezes, no interior do pensamento de cada filósofo, o modo de articular a questão.

Ora, será que podemos afirmar que no pensamento de Montaigne, nos seus Ensaios, há um projeto de autoconhecimento? Se há, o que isso significa? É um estudo da alma? Será que o conhecimento de si é importante porque garante o encontro do verdadeiro eu em toda a sua amplitude e identidade fixa? O entender a si mesmo será fundamental porque permite ao homem descobrir em si mesmo a presença do divino, do absoluto? Ou será a experiência de si um conhecimento da própria condição falível e débil, e, por conseguinte, da contingência do conhecimento humano?

Ora, o que pretendemos fazer, num primeiro momento, é realizar alguns apontamentos e analisar, a partir de alguns trechos dos Ensaios, o lugar, o sentido e a finalidade do conhecimento de si ou da experiência de si no interior do pensamento montaigneano mostrando, desta maneira, a sua especificidade em relação a toda uma tradição.

 

Montaigne e o autoconhecimento

Lemos no início dos Ensaios:

Está aqui um livro de boa-fé, leitor. Desde o início ele te adverte que não me propus nenhum fim que não doméstico e privado. Nele não levei em consideração teu serviço, nem minha glória. Minhas forças não são capazes de um tal intento. Votei-o ao benefício particular de meus parentes e amigos; para que, ao me perderem (do que correm o risco dentro em breve), possam reencontrar nele alguns vestígios de minhas tendências e humores, e que por esse meio mantenham mais íntegro e mais vivo o conhecimento que tiveram de mim. Se fosse para buscar o favor do mundo, eu me paramentaria melhor e me apresentaria em uma postura estudada. Quero que me vejam aqui em minha maneira simples, natural e habitual, sem apuro e artifício: pois é a mim que pinto. Nele meus defeitos serão lidos ao vivo, e minha maneira natural, tanto quanto o respeito público mo permitiu. Pois, se eu tivesse estado entre aqueles povos que se diz viverem  ainda sob a doce liberdade das primeiras leis da natureza, asseguro-te que de muito bom grado me teria pintado inteiro e nu. Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria do meu livro: não é sensato que empregues teu lazer em um assunto tão frívolo e tão vão. A Deus pois, de Montaigne, neste primeiro de março de mil quinhentos e oitenta.[2]

 

Nesta advertência inicial notamos uma certa preocupação em Montaigne em se descrever, pintar um auto-retrato, isto é, registrar suas tendências, opiniões, humores, seu modo de ver as coisas a fim de que seus familiares e amigos tenham um conhecimento mais íntegro dele. Ele não quer representar ou encenar escondendo seus defeitos para agradar e ser elogiado, mas sim mostrar o seu modo natural, ou seja, sua maneira própria de viver. Assim, o conteúdo dos Ensaios parece não ser tanto um saber constituído, pronto, acabado, ou seja, uma doutrina, mas sim Montaigne e tudo o que lhe é próprio, suas vivências e tendências circunstanciais.

Ora, qual o sentido de pintar a si mesmo e como ocorre de fato esse auto-retrato? Será que Montaigne entende que ao se olhar e fazer um auto-retrato estará descobrindo e conhecendo em si mesmo o homem, isto é, a natureza humana universal imutável da qual todos os humanos participariam?

No ensaio intitulado Do arrependimento Montaigne afirma:

Os outros formam o homem; eu o descrevo, e reproduzo um homem particular muito mal formado e o qual, se eu tivesse de moldar novamente, em verdade faria muito diferente do que é. Mas agora está feito. Ora, os traços de minha pintura não se extraviam, embora mudem e diversifiquem-se. O mundo não é mais que um perene movimento. Nele todas as coisas se movem sem cessar: a terra, os rochedos do Cáucaso, as pirâmides do Egito, e tanto com o movimento geral como com o seu particular. A própria constância não é outra  coisa senão um movimento mais lânguido. Não consigo fixar meu objeto. Ele vai confuso e cambaleante, com uma embriaguez natural. Tomo-o nesse ponto, como ele é no instante em que dele me ocupo. Não retrato o ser. Retrato a passagem; não a passagem de uma idade para outra ou, como diz o povo, de sete em sete anos, mas de dia para dia, de minuto para minuto. É preciso ajustar minha história ao momento. Daqui a pouco poderei  mudar, não apenas de fortuna mas também de intenção. Este é um registro de acontecimentos diversos e mutáveis e de pensamentos indecisos e, se calhar, opostos: ou porque eu seja um outro eu, ou porque capte os objetos por outras circunstâncias e considerações. Seja como for, talvez me contradiga; mas, como dizia Dêmades, não contradigo a verdade. Se minha alma pudesse firmar-se, eu não me ensaiaria: decidir-me-ia; ela está sempre em aprendizagem e em prova.

                Exponho uma vida vulgar e sem brilho; isso não importa. Ligamos toda a filosofia moral tão bem a uma vida comum e privada quanto a uma vida de mais rico estofo: cada homem porta em si a forma integral da condição humana.[3]

 

Num primeiro momento, o autor dos Ensaios descarta claramente qualquer pretensão de ensinar, de formar, de estabelecer um saber. Quer apenas relatar a realidade humana vivida por ele nas mais diversas situações. Ora, esse modo de pintar a si mesmo possibilita a apreensão da mutabilidade, da inconstância, da contingência do próprio eu e do modo como eu vejo as coisas e as julgo, como também do mundo, da vida, da realidade em geral. Assim, ao tentar fixar o objeto que quer retratar, que é ele mesmo, constata a impossibilidade de tal empreendimento, pois encontra não o ser, mas um fluxo constante, o devir. Fazer, portanto, um auto-retrato íntegro não é descrever um eu perene que está para além de todas as aparências e mudanças. Conhecer a si mesmo não é ver uma realidade pessoal que está além das vicissitudes da vida e da mutabilidade inerente à realidade humana. É relatar, apesar das diversidades dos traços da pintura e possíveis contradições, essas vivências múltiplas e até opostas que são resultado da mudança das próprias intenções, pensamentos ou circunstâncias.

Todavia, do ponto de vista da tradição isso parece contradizer a verdade que na maioria das vezes esteve associada ao ser, à imutabilidade e não ao devir. Parece que Montaigne quer romper justamente com isso, salientando que a possibilidade dele se contradizer é real, pois em um momento julga algo de um jeito e depois de outro modo. Porém, isso não implica numa contradição com a verdade porque a verdade está justamente nessa mutabilidade do eu e do mundo. O ato de ele fazer ensaios está justamente fundamentado nisso, isto é, no fato do eu estar sempre se moldando e aprendendo nos mais diversos exercícios de pensar e julgar vividos minuto a minuto. Se não fosse assim não seria preciso recomeçar o relato constantemente, mas apenas se faria uma escolha por uma certa direção ou doutrina.

Desta maneira, a condição humana que cada homem trás em si parece ser muito mais essa experiência do fortuito, da contingência, da mutabilidade, da dispersão do que a presença em si mesmo de uma essência ou natureza universal imutável e de um repouso tranqüilo.

Desta maneira, ao se recolher na sua casa, na solidão, pressupondo uma certa maturidade pessoal, e permitir que seu espírito ociosamente se voltasse sobre si mesmo e aí buscasse se fixar e repousar, Montaigne diz:

(…) descubro, que ao contrário, imitando o cavalo fugido, ele dá a si mesmo cem vezes mais trabalhos do que assumia por outrem; e engendra-me tantas quimeras e monstros fantásticos, uns sobre os outros, sem ordem e sem propósito, que para examinar com vagar sua inépcia e estranheza comecei a registrá-los por escrito, esperando com o tempo fazer que se envergonhe de si mesmo por causa deles”.[4]

Vemos que na solidão, ao voltar-se sobre si mesmo, a variação se multiplica e abre-se a via da diferença e não da identidade. Não há na experiência de si um encontro com o estabelecido e imutável. O que se revela não é uma interioridade tranqüila e um eu constante, mas sim uma diversidade de fantasias, uma agitação gerada pelo meu próprio espírito que parece uma loucura.

Mas enfim, o que é o conhecimento e a experiência de si e o que ela produz ou nos dá te tão fundamental?

No Da experiência, um dos ensaios mais longos e importantes de Montaigne, depois de analisar a arbitrariedade de se querer colocar a indução como meio seguro para se obter um conhecimento indubitável e a mesma arbitrariedade na aplicação das leis, mostrando que devido aos joguetes da fortuna não é possível prever as coisas e, por conseguinte, o querer possuir um acúmulo de experiência e de saber é uma ilusão, ele diz:

(…)Estudo a mim mais do que a outro assunto”.[5]

 

E também:

(…)Eu gostaria de ser bom conhecedor de mim mais do que de Cícero. Na experiência que tenho de mim encontro bastante com que fazer-me sábio, se eu fosse bom aluno”.[6]

 

Por intermédio destes trechos vemos que neste momento do texto a questão do conhecimento de si, no sentido de se ouvir, se observar, é colocada por Montaigne como algo importante e desejado por ele. Ora, qual a razão de ser disto?

Montaigne parece querer resgatar[7] a atitude socrática de valorizar a consciência da própria ignorância e tolice como o início da sabedoria. Eu não preciso e nem adianta olhar a natureza e conhecê-la. Muitos filósofos fizeram isso e nem por isso se mostraram sábios.

Na experiência de mim mesmo tenho o suficiente para ser um bom sábio, para saber me conduzir na vida, desde que eu seja um bom aluno, isto é, saiba me observar e escutar o que as minhas vivências dizem. Posso aprender, por exemplo, que erro, que sou falível, que sou tolo e débil. Qual o benefício disto?

O benefício é que ao experimentar várias vezes minha tolice e debilidade, isso vai me tornando sábio justamente porque desperta em mim uma desconfiança de mim próprio e uma modéstia, tomando ciência das diversidades e limitações dos meus juízos. Resultando, ademais, numa moderação das opiniões e na capacidade de se adaptar perante as diversas situações fortuitas da existência, conseguindo assim enfrentar a Fortuna.

Assim, entendemos, a partir da análise da experiência de si que, a crítica feita por Montaigne ao processo de indução e da aplicação das leis, tem sentido, pois realmente o acúmulo de saber não é possível e assim o mais importante, talvez, seja saber se orientar de maneira eficaz perante as vicissitudes da vida.

Enfim, quando vislumbramos Montaigne registrando suas vivências, reações e juízos, parece que quer mostrar que para se conhecer e moldar o seu espírito posteriormente é necessário se exteriorizar em ensaios. Ora, percebemos por meio disto e do que já foi exposto até então que a finalidade dos Ensaios, os quais parecem ser os relatos das opiniões e juízos temporários e defeituosos próprios de Montaigne, é justamente descobrir e revelar a ele suas fantasias, crenças e debilidades com o intuito de moldar o próprio eu de maneira contínua. É por isso que expressa a idéia[8] de que não é apenas ele que fez o livro, mas também que o livro o fez, no sentido de ir moldando-o. Ou seja, é como se as produções do eu pudessem constituir ou reestruturar o próprio eu, pois não há uma imagem estabelecida, um eu fixo anterior que pudesse ser reencontrado pela exteriorização. O conhecimento de si, portanto, não é um estudo da alma ou de uma imagem fixa e nem possibilita a descoberta ou estabelecimento de um saber sistemático. O que tenho é um auto-retrato, o qual me mostra as minhas tolices e debilidades.

Montaige, portanto, quer se conhecer, se observar, fazer um auto-retrato, para que, desta maneira, veja suas debilidades e falhas e assim aprenda a ser modesto nos seus juízos e opiniões e também consiga ser flexível para não ser dobrado pelas artimanhas da Fortuna, conseguindo conduzir a própria vida de modo sábio.

Assim, a questão da experiência de si é importante, pois é suficiente para nos instruir sobre o que é necessário para agir e serve, num certo sentido, como fundamento das minhas ações e escolhas. Desta maneira, apesar de não poder ser sábio mesmo conhecendo a natureza, posso sê-lo conhecendo a mim mesmo, basta ouvir nossas vivências.

 

Bibliografia

 

Birchal, T. de Souza. Montaigne e seus duplos: elementos para uma história da subjetividade. Tese de doutoramento apresentada ao Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Cardoso, S. O Homem, um Homem: do humanismo renascentista a Michel de Montaigne. In: Junqueira Filho, LCU. (Coord.) Perturbador Mundo Novo: história, psicanálise e sociedade contemporânea. São Paulo: Escuta, 1992, pp. 45-65.

–        . Villey e Starobinski: duas interpretações exemplares sobre a gênese dos Ensaios. In: Kriterion. Belo Horizonte, v. 33, n. 86, 1992, pp. 9-28.

Montaigne, M. Os Ensaios Livro I. São Paulo: Martins Fontes, 2002, I, 8.

–         . Os Ensaios Livro II. São Paulo: Martins Fontes, 2000, II, 18.

–         . Os Ensaios Livro III. São Paulo: Martins Fontes, 2001, III, 2; III, 8 e III, 13.

Starobinski, J. Montaigne em Movimento. São Paulo: Cia das Letras, 1993, pp. 7-70.

Tournon, A. Montaigne. São Paulo: Discurso editorial, 2004.

[1]Cf. Defesa de Sócrates 20d – 24b.

[2] Ensaios, Ao leitor.

[3] Idem III, 2.

[4] Idem I, 8.

[5] Idem III, 13.

[6] Idem, ibidem.

[7] Idem, ibidem

[8] Idem, III, 8.

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